Olá, pessoal!
Ao longo da minha carreira, percebi que muitos dos desafios enfrentados por arquitetos de TI não estão relacionados apenas à escolha de uma tecnologia ou à elaboração de uma solução. Eles surgem quando precisamos desenvolver trabalhos complexos em grupos, negociar prioridades, conduzir conversas difíceis e construir decisões que serão compreendidas e colocadas em prática.
Além disso, arquitetos precisam convencer, liderar e influenciar; dialogar com pares, gestores de produto, líderes técnicos e desenvolvedores; traduzir questões técnicas para a linguagem estratégica; e mobilizar grupos formados por pessoas com experiências, formações e visões de mundo diferentes.
Se você imaginou que eu trataria de inteligência artificial, arquitetura orientada a eventos ou microsserviços, desta vez o tema era outro: inteligência emocional. Foi sobre isso que falei, em junho de 2026, para um grupo de arquitetos de TI.
O conteúdo foi baseado em três livros que li recentemente: A Coragem para Liderar, de Brené Brown; Construindo Relacionamentos Saudáveis, de Stefanie Stahl; e O Animal Social, de Elliot Aronson.



As situações apresentadas a seguir são resumos das histórias discutidas pelos autores, de forma a manter as ideias centrais, relacionando-as à atuação de arquitetos de TI. Note que, apesar de tratarem de relações entre duas pessoas, as conclusões são extremamente relevantes no contexto corporativo, uma vez que abordam componentes da inteligência emocional.
A história que contamos para nós mesmos
A primeira história, presente no livro A Coragem para Liderar, apresenta um casal em que uma das pessoas demonstra carinho, mas não recebe a resposta esperada. Diante da reação aparentemente neutra do parceiro, ela interpreta o comportamento como rejeição, sente-se insegura e começa a construir uma narrativa negativa sobre a situação.
Mais tarde, a autora conta que opta por expor ao marido a história que ela estava contando para si própria, e a partir daí descobre que a reação não tinha relação com falta de afeto, mas sim com uma dificuldade pessoal que ele estava enfrentando naquele momento.
A reflexão proposta por Brené Brown é que, diante de informações incompletas, frequentemente criamos histórias bastante plausíveis, de acordo com a nossa vivência, para explicar o comportamento dos outros. O problema é que tratamos essas histórias como fatos, e geralmente não verificamos se correspondem à realidade.
No ambiente corporativo, algo semelhante acontece com frequência. Uma resposta curta pode ser interpretada como desinteresse; um questionamento, como resistência; e um silêncio, como desaprovação.
Um arquiteto que desenvolve sua inteligência emocional procura reconhecer sua própria interpretação antes de reagir a ela. Em vez de acusar ou concluir precipitadamente, retira sua armadura, faz perguntas e abre espaço para que o outro explique sua perspectiva.
Essa atitude exige autoconsciência, empatia e coragem para admitir que nossa primeira leitura pode estar errada. Muitas vezes, uma conversa franca evita que uma suposição se transforme em um conflito maior.
Quando experiências da infância influenciam relações atuais
A segunda história, presente no livro Construindo Relacionamentos Saudáveis, descreve um casal que enfrenta um conflito aparentemente simples: uma pessoa deseja mais proximidade, enquanto a outra se afasta cada vez mais. Cada uma reage de acordo com experiências emocionais construídas durante a infância.
Uma delas aprendeu a associar a distância à falta de afeto e, por isso, busca constantemente sinais de proximidade. A outra aprendeu a associar a proximidade à perda de autonomia e à responsabilidade pelo bem-estar alheio e, por isso, tende a se proteger afastando-se.
A autora utiliza os conceitos de “criança sombra” e “criança sol” para explicar esses padrões. A criança sombra representa traumas, medos e crenças limitantes formados durante a juventude. A criança sol representa nossa capacidade de agir com mais segurança, espontaneidade, autoestima e resiliência. A ideia central é aprofundar o autoconhecimento, para que as nossas crianças sombra não conduzam nossas relações.
Na atuação de um arquiteto de TI, essa reflexão está ligada à autoconsciência e à autorregulação. Experiências anteriores também influenciam nossa maneira de lidar com mudanças, críticas, conflitos e responsabilidades.
Um arquiteto que reconhece seus próprios gatilhos tem mais condições de escutar de forma aberta, discordar sem atacar e conduzir discussões difíceis com equilíbrio. A inteligência emocional ajuda a perceber quando estamos reagindo ao problema atual e quando estamos apenas repetindo um padrão antigo.
Por trás do julgamento, há um sentimento
A terceira história, presente no livro O Animal Social, mostra um casal envolvido em um conflito durante uma conversa cotidiana. Uma divergência aparentemente pequena desperta inseguranças nos dois. Em vez de expressarem o que realmente sentem, eles agem com julgamentos, acusações e agressões verbais.
O ponto central da história é que, muitas vezes, é mais fácil julgar o comportamento de alguém do que identificar e comunicar o sentimento que está por trás desse julgamento. O autor argumenta que vivemos em um mundo competitivo e que, nesse contexto, expor sentimentos é, em geral, interpretado como sinal de fraqueza.
No entanto, reconhecer o sentimento e atuar sobre, evitando julgamentos precipitados, pode ser fundamental para que o conflito seja resolvido de maneira produtiva. No mundo corporativo, arquitetos de TI precisam exercitar a inteligência emocional, tendo consciência sobre seus sentimentos e transformando julgamentos em perguntas.
Conclusão
Três histórias diferentes, presentes em livros com temáticas e teses diferentes, porém, com um fundo em comum: a importância da inteligência emocional nas relações humanas.
Dentro do contexto corporativo, a autoconsciência ajuda o profissional a reconhecer suas emoções, inseguranças e padrões de reação. A autorregulação permite responder aos desafios com equilíbrio, sem transformar frustração em agressividade ou resistência. A empatia amplia a capacidade de compreender perspectivas diferentes, enquanto a escuta ativa ajuda a identificar necessidades que nem sempre são expressas claramente. Já a comunicação assertiva, a colaboração e a capacidade de oferecer e receber feedback tornam possível transformar essas percepções em relações profissionais mais produtivas.
Na atuação de um arquiteto de TI, essas competências são fundamentais, uma vez que o seu trabalho, em um ambiente complexo e multidisciplinar, envolve uma boa dedicação de tempo em alinhamentos com públicos diversos.
Tenho a convicção de que, em um mundo no qual o conhecimento técnico passa a ser cada vez mais uma commodity (através da adoção de IA), a capacidade de estabelecer relações humanas produtivas será um importante diferencial. No fim do dia, são as pessoas que concebem, desenvolvem, implementam e utilizam a tecnologia.